Luiz Augusto dos Santos
Além dos defeitos e vícios sobre os quais ninguém se enganaria, qual o sinal mais característico da imperfeição?
(Questão nº895)
O INTERESSE PESSOAL. As qualidades morais são, freqüentemente, como banho de ouro sobre um objeto de cobre que não resiste à pedra de toque. Um homem pode ter qualidades reais que fazem dele, diante de todos, um homem de bem. Mas essas qualidades, ainda que sejam um progresso, nem sempre resistem a certas provas, e basta tocar no interesse pessoal para colocar o fundo a descoberto. O verdadeiro desinteresse é coisa tão rara na Terra que é admirado como um fenômeno quando se apresenta. O apego às coisas materiais é um sinal notório de inferioridade, porque quanto mais o homem se prende aos bens deste mundo menos compreende sua destinação. Pelo desinteresse, ao contrário, prova que vê o futuro sob um ponto de vista mais elevado. Kardec, ALLAN. In O Livro dos Espíritos.
Na grande maioria dos procedimentos humanos, encontrando-se aí incluídas as relações interpessoais de âmbito familiar, o interesse pessoal, de maneira marcante, tanto quanto velada, se faz manifesto.
É possível encontrá-lo nas expressões paternais e maternais do júbilo pelas conquistas dos filhos onde se aguarda também para si os louros de tais conquistas, tanto quanto pela maioria de nós fomentada quando estendemos os nossos elogios e parabéns, em tais circunstâncias, aos pais pelo sucesso dos filhos, de maneira que a cultura do fazer algo para e por alguém, traz embutido a necessidade de um retorno para si mesmo.
Nas queixas mais comuns das relações de amizade e de famílias, pesam quase sempre a ingratidão, filha legítima do interesse pessoal alimentado nas relações acima referidas, onde se aguarda o reconhecimento de ações benfazejas, de doações fiduciárias, apoios pessoais hipotecados, de apresentações em rodas de amigos influentes, de ocupações do próprio tempo em favor de algo no interesse do outro, tantas ocorrências possíveis, antes desinteressadas, que diante de necessidades agora surgidas ou de distanciamentos propositais do beneficiado de outrora, instalam-se em queixumes de não reconhecimento, de abandono, de mudanças de amizade ou outras tais apontando que mesmo desinteressada, outrora, a cobrança interiormente manifesta, ressalta o gérmen latente do interesse pessoal já existente desde então, haja vista não haver sentido sua instalação a posteriori, pois sendo realmente desinteressada, a ação não se permite contaminar deste infecto vício, pois a paga da ação realizada é tão só e exclusivamente a felicidade de servir, podendo ser acrescida da felicidade do beneficiário da ação.
A palavra INTERESSE por si só traz explícito o processo psicopatológico das relações de servir. São ESSES que se INTERpõem entre EU o OUTRO, entre a minha capacidade de servir e a minha necessidade de ser servido pelo serviço que presto, entre a minha felicidade real que se faz na intimidade da alma que serve e a glória efêmera que necessito mostrar para a projeção do EGO.
Para se construir a imperecível felicidade é necessário construir virtudes em si mesmo, fruto do esforço do serviço desinteressado, do exercício da alteridade da dedicação ao trabalho do bem, de onde não se almeje nenhum aplauso na terra, e nenhuma regalia no céu.
É necessário lembrar que as virtudes são árvores que tem suas raízes no céu e galhos estendidos sobre a Terra para alimentar as almas enfermas que Nela habitam aprendendo a amar e a servir em nome de Deus.
Aprendamos, pois, com o Mestre Nazareno que disse: ″EU vim para servir e não para ser servido″. Mas não apenas disse, sobretudo, em toda sua vida foi o constante exemplo de servidor dedicado prestativo e amoroso sem jamais reivindicar para si méritos, louros ou outros destaques, pois o servir constituía sua própria felicidade.