O livro é uma obra organizada pelos autores Helder Boska Sarmento; Reinaldo Nobre Pontes e Sonia Regina H. Parolin. Sua primeira edição foi em Brasília, pela FEB, em 2013 e possui 166 páginas.

O primeiro capítulo do livro é usado para apresentar o trabalho e o servidor espírita, Mario da Costa Barbosa, que desenvolveu vários palestras e seminários na década de 70 – 80 e vivenciou e estruturou a Metodologia do Espaço de Convivência, Criatividade e Educação para o Trabalho – ECCET, a ser usada nas casas espíritas pela área de infância e juventude, bem como nos trabalhos assistenciais.

Essa metodologia surgiu a partir do questionamento que ele fazia: como melhor conduzir a tarefa de evangelização para crianças filhas de pais não espíritas e que moravam em regiões periféricas das cidades?

Mario Barbosa desenvolveu uma nova forma de realizar a evangelização infantojuvenil baseada não somente na divisão por faixas etárias, com conteúdos preestabelecidos, mas a criação de espaços de convivência, construída a partir de atividades de teatro, música, futebol e atividades manuais da qual participavam crianças, jovens de diferentes idades. Ele refletia junto com a equipe de evangelizadores e voluntários do trabalho assistencial, a necessidade de estimular a criatividade, agir através da convivência e trabalhava o conteúdo doutrinário, não de forma professoral e de palestra, mas pela vivencia e pelo diálogo.

Mario da Costa Barbosa não pregava ou aconselhava, mas conduzia à profunda reflexão voltada para a construção de uma sociedade verdadeiramente caridosa, beneficiada pelo bem que pratica, na transformação do mundo em um lugar melhor para viver.

Enfim, Mario inspirou o trabalho social de varias instituições, como o Jardim das Oliveiras em Belém e o Lar Fabiano de Cristo no Rio de Janeiro.

Como um trabalhador incansável, Mário Barbosa saiu pelo Brasil afora (São Paulo, Mato Grosso, Belém, Rio de janeiro) fazendo jus à Parábola do Semeador, distribuindo as sementes do Evangelho, e, utilizando a metodologia do ECCET como forma de levar as pessoas a perceberem (como ele já havia percebido) que evangelizar necessita do evangelizar-se.  

No segundo capítulo do livro é apresentada a fundamentação doutrinária para o serviço assistencial espírita, onde a inspiração para esse trabalho esta na Doutrina Espírita e no Evangelho de Jesus. A referência prática esta no homem de bem, o homem no mundo, acreditando na capacidade espiritual/humana de reconstrução individual e social.

O serviço assistencial espírita deve buscar desenvolver ações que favoreçam o processo evolutivo do Espírito através do trabalho.

O resultado do trabalho assistencial desenvolvido pelas casas espíritas deve apontar não apenas para o atendimento do individuo em suas necessidades imediatas de sobrevivência humana, mas também atuar no sentido de transformação da sociedade.

Uma reflexão desse capítulo é sobre a realização de trabalho social para não espíritas. Sugere-se que ao atender pessoas de diferentes religiões o mais importante é deixar fluir a mensagem da autêntica fraternidade, porque é na marcha que temos a oportunidade de ensinar alguma coisa e revelar quem somos, ou seja revelar a mensagem do Cristo internalizada em nós, enquanto se marcha ao lado de alguém.

Para Mario as atividades sociais nas casas espíritas que nutrem o “esmolar” e estimulem a “atitude de pedintes”, não condizem com os princípios cristãos da caridade e estarão em posição contraria a lei do progresso.

Neste segundo capítulo é trabalhado, também, a Parábola do Bom Samaritano e todos os seus ensinamentos para o trabalho assistencial. Esclarece a necessidade de acolher com compaixão, utilizar os recursos disponíveis, acompanhar, mas também  requer conexão com as redes de politicas públicas. O ser humano tem direitos que precisam ser respeitados. A preocupação do Cristo era a realização de uma ajuda solidária. Trata-se de envolver-se com o outro, estabelecer uma relação solidária, de afetividade, ainda que seja apenas para procurar uma vaga para alguém em algum serviço. Não é simplesmente falar do cristo, é preciso conviver para viver a mensagem.

Outros assuntos abordados nesse capítulo referem-se sobre a responsabilidade de cada um de nós, como seres individuais e coletivos, no processo de transformação da situação social vigente. É tratado sobre o homem no mundo; o descobrir do mundo e do outro; a interdependência entre os seres e o grupo espírita e sua dinâmica.

Enfim, nesse capítulo, é abordado os pilares fundamentais do serviço assistencial, que são o trabalho, evolução sócio espiritual e caridade. Fundamentos que precisam ser compreendidos e praticados para ultrapassar o assistencialismo gerador de dependência.

O terceiro capítulo vai apresentar as categorias da Metodologia do Espaço de Convivência, Criatividade e Educação para o Trabalho – ECCET

ESPAÇO DE CONVIVÊNCIA

  • “… É o espaço das relações interpessoais, grupais, familiares, geracional, etc…” (1 – p 77) “… É nesse espaço de relações sociais e espirituais que se processa a afirmação dos valores cristãos preconizados pelo espiritismo: fraternidade, liberdade, igualdade, diversidade, justiça, respeito mútuo; numa palavra, relações baseadas na caridade…” (1 – pp77-79)

CRIATIVIDADE

  • “… a capacidade do ser humano em mudar e transformar as coisas, as situações, as relações e as injunções nas quais se encontra…” (1 – p 101) “… segundo Léon Denis, O homem existe para criar e não para decompor; para agir, e não unicamente para analisar…” (1 – p 101)
  • “… É possível semear a noção de que todos podem transformar o seu meio com o exercício solidário da criatividade, rompendo o circulo da comodidade e impulsionando novas experiências” (p 113).

EDUCAÇÃO

  • “… O alcance da consciência do Espírito em processo de evolução, sob a égide da moral Cristã, é a pedra angular de toda a atividade assistencial espírita, bem assim a de evangelização, o que, aliás, se diferencia do simples alcance das necessidades materiais pela assistência. A educação moral como elemento de elevação da alma em provas e expiações é o ingrediente libertador…” (1 – p 115)

TRABALHO

  • “… O trabalho é colocado como meio de elevação do espírito, como forma de ampliar a inteligência. A inteligência que vai gerar a riqueza, esta vai gerar a ciência, que trará o progresso ao homem, que, afinal, irá tirá-lo da fase bruta do trabalho para a fase mais elaborada…” (1 – p 121)
  • “… vai passando a assumir atitudes mais suaves, mais brandas, e, substituindo a sua visão mais rude, mais brutal, por uma visão mais humana, ou seja, aprofunda-se cada vez mais no âmago espiritual… “ (1 – p 121)

O capítulo trata ainda dos fundamentos doutrinários que sustentam a metodologia ECCET:

  • A verdadeira caridade: aquela que vai além da caridade material, sem a esta excluir, diante da necessidade legítima do outro, pois, quando todos praticarem a moral cristã, não haverá mais a miséria e a pobreza (ESE, cap. XIII, it. 9; LE, q. 886), pois as desigualdades das condições sociais são obra do homem e não de Deus (LE, q. 806);

RELAÇÃO DE TROCA

  • O benefício para aquele que a pratica: quem pratica a caridade encontra meios de parecer ele mesmo beneficiado diante daquele a quem presta o serviço, vivendo, assim, a verdadeira generosidade (ESE, cap. XIII, it. 3);

CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA SOCIEDADE

  • O bom emprego da inteligência pelo bem de todos, em todas as esferas de ação (ESE, cap. VII, it. 13), pois o homem “tem que atingir a finalidade que a Providência divina lhe assinalou” (LE, nota de Kardec na q. 783). Como uma força viva, o progresso (transformação da sociedade) não pode ser retardado e cabe aos homens de bem agir “em concordância com a Justiça divina, que quer que todos participem do bem” (LE, nota de Kardec na q. 78-a). Cabe ao homem a missão de trabalhar pela melhoria material do planeta, de “desobstruí-lo, saneá-lo, dispô-lo para receber um dia toda a população que a sua extensão comporta” (ESE, cap. XVI, it. 7). “As revoluções morais, como as revoluções sociais, se infiltram nas ideias pouco a pouco; germinam durante séculos; depois, irrompem subitamente e produzem o desmoronamento do carunchoso edifício do passado, que deixou de estar em harmonia com as necessidades novas e com as novas aspirações” (LE, nota de Kardec na q. 783);

TRANSFORMAÇÃO DO MUNDO PELA EDUCAÇÃO

  • Vencer o egoísmo em todas as suas dimensões e disfarces, lograr esforços na transformação das instituições e relações sociais, da família aos povos, pois “o choque, que o homem experimenta, do egoísmo dos outros é o que muitas vezes o faz egoísta, por sentir a necessidade de se colocar na defensiva” (LE, q. 917).
  • A erradicação do egoísmo “só se obterá se o mal for atacado em sua raiz, isto é, pela educação, não por essa educação que tende a fazer homens instruídos, mas pela que tende a fazer homens de bem. A educação, convenientemente entendida, constitui a chave do progresso moral” (LE, nota de Kardec na q. 917).
  • Deve-se considerar ainda, que, para o progresso da humanidade, “o homem tem de herdar do homem e porque coletivos são os trabalhos humanos: Deus abençoa a solidariedade.” (ESE, cap. XX, it. 03).

No quarto capítulo é apresentada a operacionalização da Metodologia do Espaço de Convivência, Criatividade e Educação pelo Trabalho.

A mudança principal refere-se a suprimir a forma tradicional do modelo professoral, baseado no ensino de conceitos para uma nova forma, baseada na vivência conjunta ou na convivência.

Na pratica a metodologia sugere a criação de grupos ou oficinas de atividades, de acordo com as possibilidades da casa e das habilidades dos trabalhadores. Chama-se a atenção para que as atividades de grupo sejam de interesse do público alvo.

As atividades devem ser realizadas como fim (extrair o melhor das atividades) e como meio, realizar a convivência cristã, refletindo sobre a boa nova.

Os objetivos dos grupos de atividades devem contribuir para a construção da convivência, por meio do estudo, da reflexão e do exercício da confiança, da afetividade, da solidariedade e do respeito mútuo, exercício este que a realização de uma atividade em conjunto tende a facilitar e desenvolver potencialidades e habilidades pela busca constante do melhor em relação à própria atividade.

O desenvolvimento do trabalho exige: planejamento, definição da atividade em si, espaço físico, limitação de tempo, trabalhadores, conteúdo doutrinário, normas das oficinas/grupos de atividades e recursos materiais.

O Centro Espírita, portanto, deve ser um espaço de convivência, em que a fraternidade não seja apenas um ideal, mas um exercício de construção de relações.

Mais do que uma casa prestadora de serviços (de alimentos, de roupas etc.), um espaço de convivência, onde o usuário de seus serviços, em sua condição de cidadão — sujeito de direitos —, gosta de estar, sente-se bem em estar, é recebido como é, com o seu jeito, com as suas caracterís­ticas, com a sua forma de falar, e onde encontra quem se disponha a con­versar com ele de forma natural, de irmão para irmão, dando-lhe tempo para que caminhe do ponto em que se encontra e permita acesso ao seu coração, abrindo-se, também, para o coração do outro, à semelhança do Bom Samaritano da história evangélica.

A implantação da metodologia exige que os interessados escolham os grupos de atividade que desejam participar; a atividade prática é construída por todos, durante a convivência; durante a construção-realização da atividade estabelecem-se os laços de afetividade e confiança entre os participantes; problemas operacionais e conflitos, situações que precisam ser trabalhadas surgem e nesse espaço os conteúdos doutrinários são apresentados e assimilados; os conteúdos que são trabalhados não surgem de um currículo, mas emergem da convivência e são trabalhados durante a atividade; a rotina destes encontros é dinâmica, mas não deve ser improvisada e isto deve tornar-se visível para os participantes; em cenários de carência material, algumas destas atividades podem gerar produtos vendáveis ou capacitar pessoas a atividade que gere renda e por fim, é preciso valorizar a presença e a atitude de todos dentro de suas possibilidades e capacidades. Evidenciar que a posição de quem assiste ou evangeliza não implica superioridade, mas irmandade, sobretudo porque evangelizar é, sobretudo, evangelizar-se.

Nas reflexões finais, os organizadores, apontam que essa proposta metodológica nos remete a uma forma de lembrar que, em nossas práticas, a caridade verdadeira deve presidir o agir e o pensar, logo convidando trabalhadores/evangelizadores/beneficiários a, antes de tudo, buscar e vivenciar a mensagem mais do que catequizar mentes, dando sentido prático e essencial ao “amar o próximo como a si mesmo”.

E finalizam desejando a todos os irmãos espíritas e não-espíritas, que este trabalho seja uma inspiração intelectualmente crítica, afetivamente educativa, e moralmente cristã, e, afinal, um convite: conviver para amar e servir.

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